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Boa leitura!

Por que estamos trazendo para dentro de casa tudo aquilo que antes fazíamos fora?

Foto do escritor: Marcella Sanches
Marcella Sanches
16 de set.
5 min de leitura

Academia. Cinema. Escritório. Restaurante. Spa. Adega. Sala de jogos. Espaço para receber os amigos.


Há algumas décadas, a maior parte dessas experiências tinha um endereço próprio na cidade. Para trabalhar, saíamos de casa. Para praticar esportes, íamos a um clube ou academia. Para assistir a um filme, ao cinema. Para encontrar os amigos, a um restaurante ou bar.


Hoje, parte dessa geografia está mudando.


Cada vez mais, a casa incorpora atividades que antes dependiam de outros lugares. E isso não está acontecendo apenas porque surgiram novos ambientes ou porque as residências ficaram maiores. Existe uma mudança mais interessante por trás disso: mudamos aquilo que esperamos que uma casa seja capaz de oferecer.




A casa deixou de ser apenas o lugar entre um compromisso e outro


Durante muito tempo, a residência era principalmente o ponto de partida e de chegada do dia.

O trabalho acontecia em outro lugar. O lazer, em outro. O exercício, em outro. A vida social, muitas vezes, também. Essa divisão ficou menos rígida.


O trabalho híbrido, por exemplo, fez com que a casa precisasse incorporar uma função que antes pertencia quase exclusivamente ao escritório. E não se trata apenas de colocar uma escrivaninha em um canto da sala: privacidade, iluminação, acústica, ergonomia e infraestrutura passaram a fazer parte da discussão residencial.


Mas o fenômeno vai muito além do trabalho.


A cozinha passou a ser também um lugar de convivência. A sala de televisão pode se transformar em cinema. Um ambiente reservado pode funcionar como academia, estúdio ou espaço de prática física. O jardim pode deixar de ser apenas paisagismo e se tornar um lugar para permanecer.

A arquitetura começa, então, a acompanhar uma vida que ficou mais híbrida.


Quando a cozinha virou parte da experiência


Talvez a cozinha seja um dos exemplos mais claros dessa transformação. Em muitas casas, ela deixou de ser apenas o espaço onde a comida é preparada para se tornar um dos principais lugares de encontro.


A ilha central, por exemplo, não é apenas uma solução funcional. Ela pode ser o lugar onde alguém toma café enquanto outra pessoa cozinha, onde crianças fazem a lição, onde amigos conversam durante um jantar ou onde a família simplesmente permanece depois da refeição. A cozinha passa a organizar relações.



Estudos recentes sobre arquitetura residencial também observam essa transformação: cozinhar e comer são entendidos não apenas como funções domésticas, mas como rituais que ajudam a construir convivência e pertencimento.


É uma mudança aparentemente simples, mas que diz muito sobre a casa contemporânea.


Não queremos apenas ambientes para executar tarefas. Queremos ambientes que façam parte da experiência de viver.


O escritório entrou em casa. E não parece querer sair


O home office talvez tenha sido a mudança mais evidente dos últimos anos. Mas ele trouxe uma questão interessante: se trabalhamos em casa, que tipo de casa precisamos?


A resposta não é necessariamente um escritório maior.


Pode ser uma porta que permita fechar o mundo por algumas horas. Uma boa acústica. Uma janela bem posicionada. Uma segunda conexão de internet. Um espaço que não precise ser desmontado ao final do expediente.


A casa passa a precisar acomodar diferentes versões da mesma pessoa ao longo do dia: profissional, mãe ou pai, anfitrião, alguém que quer treinar, descansar, cozinhar ou simplesmente ficar sozinho. Isso muda a arquitetura.


Já tive clientes que precisavam de um espaço não só para home office, para o estudo dos filhos. Um morava fora do Brasil e quando viesse, era necessário a casa ter um espaço para foco, concentração e conforto.


Os ambientes precisam ser menos rígidos em sua função e, ao mesmo tempo, mais precisos naquilo que oferecem.


E também começamos a trazer o lazer para dentro


A lógica se estendeu ao entretenimento. Salas de cinema particulares, adegas, bares, espaços de jogos, academias, saunas, piscinas e áreas gourmet não são exatamente novidades. O que mudou foi a quantidade de experiências que passaram a ser consideradas parte legítima da vida residencial.


Em alguns projetos, a casa chega a incorporar uma pequena infraestrutura de clube.



E isso é especialmente interessante nos grandes condomínios contemporâneos, onde a própria área comum passou a oferecer uma quantidade enorme de possibilidades: esporte, gastronomia, piscinas, espaços de convivência, natureza e serviços.


A fronteira entre casa, clube e destino de lazer começa a ficar menos nítida.


Mas por que queremos tudo tão perto?


Essa talvez seja a pergunta mais interessante.


A resposta mais óbvia seria: comodidade.


E ela certamente faz parte. Mas existe algo além.


Tempo passou a ter um valor diferente.


Evitar um deslocamento de uma hora para fazer uma atividade de uma hora muda completamente a experiência. Ter uma academia a poucos passos, poder trabalhar sem enfrentar trânsito, receber amigos sem precisar reservar um restaurante ou assistir a um filme sem sair de casa são pequenas economias de tempo que, acumuladas, alteram a rotina.


Confesso que hoje prefiro treinar e me exercitar em casa do que ir a uma academia.



Existe também uma busca maior por controle.


Na própria casa, escolhemos a iluminação, a temperatura, a música, a privacidade, o horário e até quem participa daquela experiência.


Uma academia pode ser compartilhada com centenas de pessoas.

Uma academia dentro de casa é outra coisa.

Um restaurante oferece uma experiência preparada para muitas pessoas.

Uma cozinha pensada para receber transforma a experiência de quem está ali.

O cinema deixa de ser apenas um lugar onde assistimos a um filme e passa a ser um ambiente criado de acordo com a preferência de quem mora naquela casa.


A experiência deixa de ser padronizada e passa a ser personalizada.


Só que existe uma contradição


Quanto mais completa fica a casa, mais interessante se torna perguntar:

o que ainda precisamos sair de casa para viver?


Porque nem tudo pode, ou deveria, ser reproduzido dentro de quatro paredes.


Um restaurante não é apenas comida. É uma mesa em outra paisagem, pessoas diferentes, movimento, surpresa.

Uma cidade não é apenas infraestrutura. É encontro, arquitetura, cultura, acaso.

Uma viagem não é apenas uma cama confortável e uma boa piscina.

Talvez seja justamente aí que esteja a questão.


A casa não está substituindo a cidade, eu adoro o lazer externo, na verdade eu necessito ver o movimento, mas claro que escolher uma casa mais completa no faz selecionar aquilo que queremos trazer para perto.


A casa como uma pequena cidade particular


É curioso observar como essa transformação acontece em diferentes escalas.


Primeiro, dentro do próprio imóvel: escritório, academia, cinema, spa, adega, cozinha social.

Depois, no condomínio: clube, restaurante, quadras, piscinas, áreas de convivência, espaços para crianças, natureza.

E, em determinados destinos, praticamente toda uma estrutura de lazer e serviços se desenvolve ao redor das residências.


É como se estivéssemos criando pequenas versões particulares da cidade, mas com uma diferença fundamental: podemos escolher quem entra, o que fazemos e como queremos viver aquele espaço.


Essa talvez seja uma das características mais interessantes da arquitetura residencial contemporânea.

Não estamos apenas construindo ambientes maiores.


Estamos tentando construir experiências mais completas.


E talvez a verdadeira questão não seja ter tudo


Existe uma diferença importante entre uma casa cheia de funções e uma casa que realmente entende quem mora nela.


Ter uma sala de cinema não significa necessariamente assistir mais filmes.

Ter uma academia não significa necessariamente treinar mais.

Ter uma cozinha enorme não significa necessariamente cozinhar.

A arquitetura pode oferecer possibilidades, mas é a vida de cada pessoa que decide quais delas realmente fazem sentido.

Por isso, talvez o futuro da casa não esteja em acumular cada vez mais ambientes.

Talvez esteja em criar espaços capazes de acompanhar diferentes momentos da vida... trabalhar, receber, descansar, cozinhar, celebrar, ficar sozinho, estar junto.


No fim, continuamos saindo de casa.

E talvez seja justamente isso que torne uma boa casa tão interessante.


Ela não precisa substituir o mundo lá fora.


Ela precisa ser o lugar para o qual ainda temos vontade de voltar.

 
 
 

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